
O debate sobre como Deus e a humanidade interagem na questão da salvação tem sido uma questão central na teologia cristã. As tradições teológicas do Calvinismo, Arminianismo e Molinismo oferecem diferentes perspectivas sobre a soberania divina, o livre arbítrio e a predestinação. A seguir, exploramos as principais diferenças entre essas doutrinas, incluindo reflexões bíblicas e filosóficas que ajudam a entender o que cada uma ensina sobre a relação entre Deus e a humanidade.
1. Calvinismo
Doutrina Principal: Soberania de Deus e Predestinação
O calvinismo, fundamentado por João Calvino, ensina que Deus é absolutamente soberano e que a salvação é predestinada. Em outras palavras, Deus escolhe, de maneira incondicional, quem será salvo (os eleitos) e quem será condenado (os réprobos), sem levar em conta a ação ou escolha dos indivíduos.
A visão calvinista pode ser ilustrada com a seguinte analogia: imagine que você está participando de uma competição de esportes, mas, antes de começar, o treinador já decide quem ganhará e quem perderá, independentemente do desempenho dos atletas. Mesmo que um dos atletas tente melhorar sua performance, ele não pode alterar o resultado predeterminado.
Porém, essa visão levanta questões bíblicas significativas. Um exemplo claro é o apelo à decisão humana encontrado em passagens como Apocalipse 22:17, que diz: “E o espírito e a noiva estão dizendo: 'Vem!' E quem ouve diga: 'Vem!' E quem tem sede venha; quem quiser tome de graça a água da vida.” Isso sugere que a salvação é oferecida a todos e depende da resposta livre do indivíduo, o que parece contradizer a ideia de uma escolha divina que não leva em conta a vontade humana.
Além disso, em Deuteronômio 30:19, Deus diz: “Deveras tomo hoje os céus e a terra por testemunhas contra vós de que pus diante de ti a vida e a morte, a bênção e a invocação do mal; e tens de escolher a vida para ficar vivo, tu e tua descendência.” Isso implica que Deus dá ao ser humano a capacidade de escolher, o que reflete a ideia de livre arbítrio e não uma predestinação absoluta e incondicional.
Reflexão sobre o calvinismo:
Se a salvação e a condenação já são determinadas de antemão, como afirma o calvinismo, como seria possível haver um apelo genuíno para que as pessoas escolham a vida? A ideia de livre arbítrio presente nas Escrituras refuta a visão calvinista de que a salvação é decidida unilateralmente por Deus, sem qualquer envolvimento da vontade humana.
2. Arminianismo
Doutrina Principal: Livre Arbítrio e Responsabilidade Humana
O arminianismo, fundado por Jacobus Arminius, ensina que Deus é soberano, mas concede aos seres humanos o livre arbítrio para aceitar ou rejeitar a salvação. A salvação, portanto, é oferecida a todos, mas depende da resposta livre do indivíduo.
A analogia aqui é a de uma competição onde o treinador oferece a todos uma chance igual de vencer, dependendo de como se comportam durante a prova. Cada atleta tem total liberdade para fazer escolhas que afetarão seu desempenho, mas o treinador não predetermina quem vencerá.
No entanto, há um ponto filosófico que precisa ser considerado: se Deus é onisciente e sabe todas as coisas, incluindo as futuras escolhas de seres humanos que ainda não vieram a existir, poderia haver uma “escolha livre” que não tenha sido previamente conhecida por Ele? Não. Se Deus sabe de todas as escolhas futuras de todos os seres humanos que ainda não passaram a existir, então tais pessoas não possuem alternativa não ser escolher aquilo que Deus já sabe que escolherão.
Assim, para haver livre arbítrio no arminianismo, o futuro teria de ser “não conhecido” em relação à liberdade humana, mas como isso seria possível em um universo que já existe sob a vontade soberana de Deus? Em outras palavras, como poderia Jeová Deus não saber de algo que já aconteceu em alguma fatia espaço-temporal no futuro? O futuro, sendo algo que ainda não aconteceu, não pode existir de forma independente nem “se autocriar” em uma fatia de espaço-tempo sem que haja alguma forma de predestinação ou determinação por parte do Criador. A ideia de um “futuro independente” que ainda não foi predestinado e que se cria sem qualquer relação com a soberania de Deus parece filosoficamente inconsistente.
Deus, sendo eterno e atemporal, já conhece todas as possibilidades para todas as escolhas humanas antes mesmo de acontecerem. Isso cria uma tensão lógica, pois o conceito de livre arbítrio no arminianismo implica que o futuro ainda não está "fechado" e se constrói de maneira autônoma, o que é difícil de reconciliar com a doutrina de um Deus que é onisciente e soberano.
Reflexão sobre o Arminianismo:
O conceito de conhecimento eterno de Deus em relação à futura fé que cada pessoa que ainda não existe demonstrará, conforme defendido pelo arminianismo, parece estar em desacordo com a soberania divina e a onisciência de Deus. Se Deus já conhece o futuro, isso implicaria que as escolhas livres de seres humanos não poderiam existir de forma independente, sem que Deus as tenha predeterminado ou já as tenha conhecido em Sua eternidade. Portanto, a ideia de que as decisões humanas não têm relação com o plano divino parece incoerente.
3. Molinismo
Doutrina Principal: Livre Arbítrio com a Soberania de Deus (Conhecimento Médio)
O molinismo, desenvolvido por Luís de Molina, busca conciliar a soberania de Deus com o livre arbítrio humano por meio do conceito de conhecimento médio. Segundo essa doutrina, Deus possui um conhecimento perfeito do que qualquer ser humano escolheria em qualquer situação específica. Isso permite que Deus planeje e predestine a salvação com base nas escolhas livres que os indivíduos fariam em qualquer cenário, respeitando a liberdade humana sem violar sua soberania.
A analogia para o molinismo seria a de um treinador que conhece profundamente cada atleta e sabe como ele reagiria a diversas situações durante uma competição. Embora o treinador não interfira nas escolhas dos atletas, ele planeja a estratégia de jogo de acordo com o que ele sabe que cada um fará em circunstâncias específicas. Assim, Deus, com Seu conhecimento perfeito, conhece todas as possíveis escolhas humanas, e com base nisso, predestina o curso dos eventos sem anular o livre arbítrio.
Texto Bíblico que Apoia o Molinismo:
Em Romanos 8:29-30, Paulo diz: “porque aqueles a quem ele primeiro deu consideração, a esses também predeterminou que fossem modelados à imagem do seu Filho, para que este fosse o primogênito entre muitos irmãos. 30 Além disso, aos que ele predeterminou, também chamou; e aos que chamou, também declarou justos. Finalmente, aos que ele declarou justos, também glorificou.”
Essa passagem sugere que Deus conhece de antemão quem será salvo, mas esse “conhecimento” não significa apenas uma previsão passiva, mas um conhecimento profundo e ativo, que está em consonância com a ideia molinista de um conhecimento médio de Deus.
Reflexão filosófica sobre o Molinismo:
O molinismo parece resolver de forma mais consistente o dilema entre soberania e livre arbítrio ao afirmar que Deus, sendo onisciente e eterno, conhece todas as opções possíveis que os seres humanos poderiam escolher, mas, ao mesmo tempo, mantém a liberdade das escolhas humanas. Isso permite que Deus predestine com base no conhecimento do que os indivíduos escolheriam de forma livre, sem violar sua liberdade.
Essa visão parece ser mais consistente com a Bíblia, pois reconhece tanto a soberania de Deus quanto a responsabilidade humana de fazer escolhas. O molinismo respeita o livre arbítrio e ao mesmo tempo afirma que Deus é soberano e conhece todas as possibilidades, o que é um equilíbrio teológico justo.
Conclusão
Após considerar as diferenças entre calvinismo, arminianismo e molinismo, parece que o molinismo oferece a solução mais equilibrada e bíblica. Ele não anula a soberania de Deus nem o livre arbítrio humano, mas os integra de maneira harmoniosa, com base no conhecimento médio de Deus. O calvinismo, embora enfatize a soberania divina, não parece conciliar bem com as Escrituras que falam de escolhas livres, enquanto o arminianismo, ao enfatizar o livre arbítrio, entra em conflito filosófico com a onisciência de Deus e Sua soberania. O molinismo, portanto, oferece uma explicação teológica mais robusta e biblicamente fundamentada para a relação entre Deus e a humanidade.
Comparação dos Três Modelos
Aspecto |
Calvinismo |
Arminianismo |
Molinismo |
Soberania de Deus |
Total soberania de Deus, que predestina os eleitos. |
Deus é soberano, mas concede livre arbítrio aos seres humanos. |
Deus é soberano, mas conhece as escolhas livres dos indivíduos e baseia sua predestinação nesse conhecimento. |
Livre Arbítrio |
Limitado, pois a salvação é predestinada. |
Total, a salvação depende da escolha humana. |
Livre, mas com um plano divino baseado no conhecimento das escolhas futuras. |
Predestinação |
Predestinação incondicional (Deus escolhe quem será salvo). |
Predestinação condicional (depende da resposta humana). |
Predestinação baseada no conhecimento médio de Deus sobre as escolhas humanas. |
Visão sobre a Salvação |
Salvação é determinada exclusivamente pela vontade de Deus. |
A salvação é disponível para todos, mas depende da decisão humana. |
A salvação é disponível para todos, e Deus planeja com base no conhecimento de como as pessoas responderiam às situações. |
Comentários